Ilustração de Jész Ipólito, mulher negra de cabelos crespos pretos e curtos, porta um óculos amarelo, um casaco verde e um colar de bolinhas, com a mão esquerda tocando o rosto. A ilustração foi feita para o Especial Discurso de Ódio, por Stephanie Pollo.

“O grande desafio é a gente fazer da segurança um hábito cultural na internet”

A feminista negra Jész Ipólito é a segunda entrevistada no Especial Discurso de Ódio e, além de falar sobre segurança de dados, argumenta que a internet  se colocou como uma mola propulsora para que debates identitários e de negritude ganhassem outros contornos.

Especial Desigualdades e Identidades 17.09.2021 por Fernanda K. Martins

Para dar continuidade às discussões sobre a violência online, o Especial Discurso de Ódio traz Jész Ipólito para compor o quadro de entrevistadas.

A segunda entrevistada é gestora de projetos e social media. Feminista negra, constrói atualmente a Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas (ANJF) e o coletivo de mídia negra Revista Afirmativa. É idealizadora do blog Gorda&Sapatão, espaço de reflexão sobre lesbianidade, negritude, corporalidades e feminismos.

Na conversa, Jész fala sobre os principais desafios para que as mulheres negras atuem enquanto ativistas na internet, destaca a vulnerabilidade de alguns grupos sociais na internet, tais como a população negra, as pessoas LGBTQIA+, as populações indígenas, as pessoas com deficiência e também as juventudes periféricas. Além de chamar atenção para a importância de não homogeneizarmos o que seriam os discursos de ódio e de construirmos uma cultura de segurança na internet.

Ilustração de Jész Ipólito, mulher negra de cabelos crespos pretos e curtos, porta um óculos amarelo, um casaco verde e um colar de bolinhas, com a mão esquerda tocando o rosto. A ilustração foi feita para o Especial Discurso de Ódio, por Stephanie Pollo.
Ilustração da feminista e gestora de projetos Jész Ipólito, por Stephanie Pollo.

Os movimentos negros e os movimentos de mulheres negras tiveram um papel fundamental de fazer com que nos reconhecêssemos negras, a gostar do nosso cabelo e da nossa cara, entender a nossa família, o que significa miscigenação ou quais foram os processos de violência que o nosso país tem passado

Confira a entrevista na íntegra:

Como você compreende a organização social das mulheres feministas no atual contexto brasileiro?

A minha experiência vem de São Paulo há uns 7, 8 anos, quando eu participei de organizações feministas majoritariamente brancas, organizações de mulheres feministas negras e de organizações negras, que não necessariamente vão fazer o debate mais explícito sobre feminismo. Atualmente, eu tenho participado da Articulação Nacional de Negras Jovens Feministas e com os movimentos sociais de mulheres negras aqui de Salvador. Então, esse é o lugar de onde eu falo, da onde eu tenho vislumbrado todo esse cenário que a gente tem acompanhado nos últimos anos. 

A organização das mulheres negras é de muita resistência no sentido de tentar dar conta dessa conjuntura que tem empobrecido muito mais a população negra, a população jovem, mas também de tentar não deixar com que mais retrocessos aconteçam. São tentativas constantes, em tempo real, de nos manter vivas, basicamente. Acho que é algo que às vezes as pessoas não levam em consideração, mas temos visto um cenário no qual muitas ativistas estão passando por uma situação de muita vulnerabilidade no sentido de empobrecimento – mais do que já era antes. A partir disso, às vezes, temos que tentar descortinar esse mito de que estamos em um lugar diferente por ser ativista, mas estamos no mesmo barco, no sentido de estar organizado as resistências a nível local, e também se articulando com outros movimentos maiores, promovendo algumas coalizões políticas, para tentar segurar alguns direitos, tentar garantir comida nas mesas das famílias. 

Temos que respeitar o que as pessoas estão dizendo sobre o que elas estão fazendo

Nesse cenário, como você pensa as mulheres negras e as mulheres que não estão necessariamente em um movimento social? 

‘Às vezes, temos esse olhar mais para as mulheres ativistas, mas eu acompanho alguns coletivos comunitários e elas não necessariamente estão se colocando enquanto ativistas. Tenho acompanhado um coletivo que elas basicamente são vizinhas na periferia da Mata Escura, aqui em Salvador, e se reuniram para promover a alfabetização. Todas eram trabalhadoras domésticas e a maioria delas não sabia ler e escrever direito. Elas começaram a entender quais eram as necessidades delas e começaram a se articular. Então, é por meio dessas iniciativas que não necessariamente vão se colocar publicamente enquanto ativismo, mas que nós, enquanto ativistas, identificamos que é. Temos que respeitar o que as pessoas estão dizendo sobre o que elas estão fazendo. Se elas estão dizendo que elas são um coletivo, que vão fazer ações para promover ali o bem-estar da comunidade delas, não necessariamente temos que dizer “ah não, é feminista sim” e tentar travar uma disputa de narrativa ali com elas. Acho que a gente precisa de fato identificar essas ações, que estão um pouco distantes daquilo que comumente vimos enquanto ativismo, e tentar fortalecer de alguma forma, pensar: “onde eu posso ajudar?”, “onde eu posso somar forças para que essa iniciativa se desdobre em outras ou possa alcançar mais pessoas?”.

Dessa forma, acredito que temos que ter mais esse olhar para aquelas que não querem explicitamente se dizer ativistas ou se dizer feministas, sabe? Vai um pouco nessa direção, porque inclusive são mulheres que dentro de casa estão também entendendo a conjuntura e estão sentindo no bolso; elas estão sentindo que não está dando para pagar conta como dava antes, para comprar algumas coisas como dava antes. São mulheres que têm essa perspectiva do cotidiano e que sem dúvida colaboram muito para nossa análise política.

Você diria que aconteceram mudanças significativas na forma como as mulheres negras passaram a atuar nas últimas duas décadas?

Nestas últimas duas décadas, os movimentos negros e os movimentos de mulheres negras tiveram um papel fundamental de fazer com que nos reconhecêssemos negras, a gostar do nosso cabelo e da nossa cara, entender a nossa família, o que significa miscigenação ou quais foram os processos de violência que o nosso país tem passado. 

Acredito que a internet tenha sido, sim, uma ferramenta que se colocou como uma mola propulsora para que esses debates ganhassem outros contornos, queira a gente ou não, goste ou não, com discurso de ódio, sem discurso de ódio… Mas muita gente finalmente se viu em algum lugar – “estou vendo alguém parecido comigo e ela está falando sobre algo legal, compartilhando uma experiência que se aproxima da minha”. Foi um processo de estreia, acho que para muita gente, de se ver representada e de também questionar esta representatividade. O que eu acho mais interessante dos movimentos é o dinamismo e que ao mesmo passo que estamos dizendo que queremos representatividade, também estamos dizendo que não pode ser qualquer uma. Essa é a minha perspectiva, mas o que eu tenho visto, majoritariamente, é as pessoas entendendo que não dá para fazermos parte de uma minoria socialmente excluída com os direitos negados e trabalhar para um processo antidemocrático. Então, vide o presidente da Palmares, que desserviço, sabe? 

Muito embora sejamos minoria ainda nos espaços da graduação, mestrado e doutorado, temos condições agora de dizer para as nossas crianças que é possível que elas entrem nas universidades, que elas sonhem com isso. E esse processo de fortalecimento mesmo da identidade negra, de se reconhecer negro, do tornar-se negro, como Lelia Gonzales já falou. Esse é um ganho muito fundamental.

Nessas últimas duas décadas o processo de cotas ganhou um corpo muito fundamental no sentido de lançar luz para possibilidade, já que antes achávamos que nem era possível entrar numa universidade pública. Agora, acho que esse período é de possibilidade, de entendermos que é possível e escolher também não ir para lá, mas saber que é possível. Muito embora sejamos minoria ainda nos espaços da graduação, mestrado e doutorado, temos condições agora de dizer para as nossas crianças que é possível que elas entrem nas universidades, que elas sonhem com isso. E esse processo de fortalecimento mesmo da identidade negra, de se reconhecer negro, do tornar-se negro, como Lelia Gonzales já falou. Esse é um ganho muito fundamental. O que eu vejo é que a internet oferece um leque muito maior de possibilidades, de se descobrir não somente negro mas experienciar outras identidades e de se questionar também.

Você colocaria algum outro marco como importante na construção das reivindicações das mulheres negras nesse último período no Brasil?

O assassinato de Marielle foi muito emblemático para comunidade de mulheres negras. Depois do assassinato dela, vimos o quanto mulheres negras têm tentado estar dentro da política institucional e fazer a diferença. Há de fato um antes e um depois para o movimento de mulheres negras, porque temos uma crescente muito forte e a tendência é aumentar a participação política, é estruturar o que isso significa. 

Acho que antes da morte de Marielle Franco, poderíamos falar também nesse âmbito institucional, os mandatos coletivos são um formato de candidatura que a gente tem aprimorado e que tem dado muito certo. Acredito  que estreiamos algumas metodologias e também fizemos fortalecer esse movimento de pertencimento a esse espaço que é de disputa, de ir para cima deles, denunciar e fazer esse movimento de exigir o que é de direito dentro dos partidos, fora dos partidos, nas Câmaras Municipais, nas Assembleias. Enfim, eu tenho esperança de que vamos conseguir, em alguns anos, ter uma mulher negra candidata à presidência para realmente mobilizarmos o país.

Você diria que a internet pode ser pensada como instrumento importante na atuação das mulheres negras?

Com certeza, cada vez mais. Temos entendido que está ficando mais difícil chegar a alguns lugares onde a internet é escassa ou ruim – vejo que o acesso à internet e a ausência desse acesso nos deu uma radiografia do país muito explícita. Nós que conseguimos ter acesso a internet conseguimos ver o país com uma outra ótica, em um sentido de chegar mesmo até essas outras mulheres e perceber o quanto essa ferramenta é útil para nossa vida e o quanto podemos transformar a nossa realidade por meio dela. E, então, quando não conseguimos chegar até outras mulheres é frustrante, porque daí você vê que “pô, eu não tenho grana para ir para o interior do Ceará fazer mobilização, fazer formação política” – se você já não tem pessoas lá para você instaurar esse processo fica mais difícil. Então, com certeza a internet é uma ferramenta muito potente e cada vez mais temos entendido isso. Sentimos muito mais a força dela quando temos acesso, e também sentimos a força dela quando não temos acesso. E essa é a parte mais preocupante: como fazemos para democratizar o acesso à internet sendo que as pessoas ainda não têm água encanada, por exemplo? 

Acho que essa é uma via também para entender as dimensões das desigualdades sócio-raciais neste país, porque enquanto as grandes articulações de internet então discutindo os rumos da tecnologia, nós, do movimento, estamos tentando ter internet aqui na periferia. É uma radiografia muito complexa, mas que temos que olhar para ela, se debruçar e reconhecer. Acho que têm coisas muito boas mas têm coisas ainda que estão muito frágeis e tem algumas percepções políticas filosóficas que precisamos de fato se apoderar, dessas compreensões sócio-raciais do nosso país para tentar ir em outras direções também, porque essa ausência da internet nos lugares é um grande problema. Eu lembro de uma ocasião que eu estava com uma organização de direitos e tecnologia e algumas lideranças pesqueiras e quilombolas aqui na região do Recôncavo, onde queríamos instalar uma intranet para que as pessoas pudessem conversar. Ali, é uma região de muita especulação imobiliária e as lideranças estavam sendo muito perseguidas, literalmente ameaçadas. E quando fizemos esse projeto, as pessoas que não vivem na comunidade não tinham noção do desafio que é montar uma intranet, instalar os equipamentos e a manutenção daquilo – existe também uma ausência de uma cultura da internet mesmo. E aí, como é que podemos defender quando está dentro dela ou como a  usamos de uma forma melhor e mais útil para a nossa comunidade? 

como fazemos para democratizar o acesso à internet sendo que as pessoas ainda não têm água encanada, por exemplo? 

Para as mulheres que têm acesso à  internet, as mulheres negras especificamente, quais você acha que são os principais desafios para que elas atuem enquanto ativistas na internet?

Vejo que é entender quais são as ferramentas para nos defendermos, o que é, na verdade, a necessidade de você conseguir desenvolver um hábito novo de não deixar o seu e-mail permanentemente logado no navegador, por exemplo, sabe? É um hábito que se tem que criar para que você não fique tão vulnerável a algum ataque ou se alguém roubar o seu computador, algo nesse sentido. Então eu acho que tem alguns conhecimentos que a gente, enquanto ativista, só está se dando conta quando passa a sofrer ataques. 

Por exemplo, em uma das instituições que trabalho, estávamos tendo constantes tentativas de acesso em uma das nossas redes sociais – temos segunda etapa de verificação, a troca a senha com frequência, temos alguns cuidados neste sentido. Em outra instituição ainda mais, porque falamos de segurança digital. E recentemente, uma organização de mulheres lésbicas nos procurou para pedir ajuda porque várias ativistas delas estão sofrendo invasão de contas no Facebook e no Instagram, e clonagem de WhatsApp – com pessoas pedindo dinheiro em nome delas. E não é só elas que estão sofrendo isso, mas existe algum padrão, por que o que pode estar acontecendo quando 6 pessoas da mesma organização, 6 pessoas que são lésbicas feministas declaradamente ativistas, vivenciam esses processos? O que é que isso significa politicamente falando? Então, estamos tentando ajudá-las da maneira que a conseguimos, mas o fato é que o mais difícil é você conseguir estabelecer um hábito de proteger as suas contas na internet, e digo isso porque eu fui uma pessoa que já sofri ataques online e demorei muito tempo para ter, por exemplo, um banco de senhas. Hoje em dia, não vivo sem um banco de senhas, é automático para mim, se eu vou fazer login em algum lugar eu gero uma senha aleatória, mas muitas mulheres ainda não sabem o que é isso. 

Essa linguagem dos cuidados digitais é uma linguagem que ainda não foi democratizada para todas as pessoas que têm acesso à internet e muitas ativistas que estão em evidência e colocam muito mais sua cara para bater às vezes não tomam muitos cuidados. Ou, às vezes, elas também não falam sobre isso, ou nem consideram ter alguns cuidados com as suas contas como algo primordial. Por isso, eu acredito que o grande desafio é fazermos da segurança um hábito cultural na internet, porque aí é você aplicar todos os dias, é como se você estivesse se protegendo de um soco, revidando um tapa. Quando eu troco a minha senha e coloco verificação de duas etapas, eu estou me protegendo de alguma maneira. Trabalhamos com o que temos, porque até então eu não conheço uma rede social que seja código aberto ou que tenha os princípios feministas. Se a gente pudesse talvez criar processos de desenvolvimento de hábitos para que as pessoas compreendam que não é você simplesmente “ah é muita coisa”, “é muito aplicativo”, mas é o que tem para que você possa se proteger, para que você evite ser exposta na internet. 

Porque também tem muito esse bloqueio das pessoas quando afirmam que não sabem mexer na internet, em minha experiência. Observo isso principalmente com as mulheres mais velhas porque elas não cresceram com isso, então elas estão tendo que aprender a lidar com esse meio virtual na marra, e a gente que já sabe também se rebate porque é você ensinar virtualmente para uma mulher como ela acessar aquele negócio, e às vezes não funciona. E elas estão tendo que aprender ali na marra tanto a parte de processos de violência, quanto a partir do primeiro acesso, sabe? Então acho que talvez desenvolver uma cultura do hábito da segurança para mim é algo muito mais desafiador do que simplesmente a gente usar as ferramentas certas, porque você pode até ter as ferramentas mas não saber usar.

Você concorda com a afirmação: “A internet tem sido um importante espaço para complexificar as noções que temos sobre violência de gênero, racismo e LGBTfobia”?

Sem dúvida. Vejo que a internet conseguiu fazer com que pessoas que antes não se viam nos espaços, ou desacreditavam daquilo que elas eram, tivessem uma possibilidade de existir, seja pelo do YouTube, blogs ou Instagram. Isso fez com que a gente complexificasse as compreensões das identidades, de saber que um negro gay não é o esteriótipo que eu imaginava, por exemplo. E aí, não exatamente com uma narrativa tão vigorosa no sentido de defender pautas. As pessoas estão apenas existindo, na maioria das vezes estão fazendo o seu rolê bem lindas, bem plenas. A internet consegue oferecer uma ampla gama de pessoas ali existindo e você pode olhar para elas e se espelhar. Você pode identificar outras possibilidades para sua própria vida a partir dessas pessoas.

Você concorda com a afirmação: “A internet tem sido um espaço seguro para a presença de ativistas e militantes”?

Não. Não, mesmo. Eu tenho percebido que tem um padrão de aceitabilidade, enquanto você está ali sem incomodar algumas identidades hegemônicas, está tudo bem, ninguém vai vir atrás de você, ninguém vai simplesmente no seu perfil falar qualquer coisa. Mas, quando passamos a fazer afirmações, a mexer em algumas identidades e a jogar luz em algumas verdade obscurecidas, aí o negócio fica mais complicado e a violência vem com tudo. 

O que eu acho interessante é que, mesmo quando você está só ali existindo, por exemplo, nas redes sociais, a diferença da forma como o algoritmo entende os perfis já é discriminatória. Isso, eu acho bizarro, do quanto a gente tem compreendido que um algoritmo consegue diminuir o seu alcance, fazer com que menos pessoas recebam seu conteúdo e menos pessoas possam fazer parte daquilo. E o impacto disso é muito grande, porque se ele está diminuindo para uma, ele vai aumentar para outra pessoa. E sendo um rosto preto na internet a gente já viu que é diferente de ser um rosto branco e está cada vez mais ficando evidente essas dicotomias na internet. 

Então, de fato, não é um espaço seguro em nenhuma dimensão, porque a qualquer momento também a conta pode sumir como aconteceu comigo em 2016 – eu simplesmente perdi meu Instagram. Eu não sei o que aconteceu, não tinha na época um SAC, um 0800, nenhum tipo de atendimento ao cliente, não sei o que aconteceu, simplesmente foi deletado. Estamos também à mercê disso, de simplesmente você acordar e um dia sua conta não estar lá mais e quem é que garante que vamos saber o que aconteceu? Quem é que garante que vamos conseguir atendimento? É uma linha muito tênue, a nossa presença online. Mas a priori é um espaço muito inseguro.

Você acredita que alguns grupos sociais são mais vulneráveis na internet do que outros?

Sim, principalmente se esses grupos forem fazer uma ampla defesa das suas demandas políticas enquanto comunidade. Acho que tem uma diferença quando você é uma pessoa ativista que está organizada, e falando sobre as pautas, as lutas, as demandas da comunidade, e quando você é simplesmente uma pessoa que faz parte da comunidade, e tem orgulho de ser, mas não necessariamente está falando sobre isso. Vejo que pessoas que estão majoritariamente e explicitamente falando sobre as demandas de seus grupos sociais têm uma possibilidade muito maior de sofrer ataques do que aquelas que não estão. Porque uma vez que estamos fazendo uma denúncia, queremos ser ouvidas, e vamos usar todos os artifícios para que aquela mensagem chegue mais longe, e, consequentemente, também vai vir muito hate.

Quais grupos sociais você destacaria, Jéssica?

A população negra, as pessoas LGBTQIA+, os povos indígena, as pessoas com deficiência e também a juventude periférica, que denuncia a invasão e ação truculenta e violenta das polícias nas comunidades. Essa galera ativista está muito em evidência, eu acredito.

A denúncia e o debate mais público e amplo sobre os ataques às mulheres negras, à comunidade LGBT tem ganhado muita força, principalmente quando a gente fala sobre discurso sobre ódio – que não é só ataque por ataque e tem toda uma narrativa por trás.

Nos últimos anos, o debate acerca da internet ser ou não um espaço saudável para debates tem se fortalecido no Brasil. Você destacaria algum marco que tenha influenciado o fato desse debate acontecer com mais força agora?

Acredito que o episódio de assassinato de Marielle deu uma influenciada em muitas frentes, e vejo que a internet é uma delas. Eu lembro que rolou esse lance de a estarem vigiando pelo celular, de terem acesso a mensagens dela e também de saber onde ela estaria por meio das redes sociais. Na época, foi uma parada que deixou todo mundo muito tenso, de “ai, não compartilha onde está”, “vamos fazer reunião sem celular porque a gente pode estar sendo vigiada”, e assim, podemos mesmo. 

A denúncia e o debate mais público e amplo sobre os ataques às mulheres negras, à comunidade LGBT tem ganhado muita força, principalmente quando a gente fala sobre discurso sobre ódio – que não é só ataque por ataque e tem toda uma narrativa por trás. Mas eu acho que o que ganha destaque são ocasiões como daquela menina africana que mora no Rio de Janeiro, e no colégio que sofreu ataques com piadas racistas no grupo de WhatsApp, ou do menino que sugeriu um trabalho sobre temática LGBT na escola e foi rechaçado no grupo da escola. Há alguns casos que não propriamente são de ativismo, mas que ganharam repercussão nacional a partir do ativismo, a partir das pessoas identificarem aquilo como algo absurdo, como algo que não faz sentido. 

Acredito que organizações como o Blogueiras Negras têm tido um papel muito fundamental em tensionar essa percepção dos cuidados digitais – as organizações feministas da América Latina têm falado muito mais sobre isso, e eu acho que tem sido ouvidas também, o que é muito importante, porque falar, estamos falando há muito tempo, agora, ser ouvida é diferente. Temos há um tempo organizações dedicadas a fazer esse debate, mas que só agora estão conseguindo capilarisar na arena pública. O fato de as celebridades ou subcelebridades também estarem vivenciando episódios de racismo na internet são momentos relevantes para que o debate seja realmente considerado como algo que a gente precisa pensar sobre. Tivemos casos contra Sheron Menezzes, a filha da Pocah que participou do Big Brother, Taís Araújo, Maju Coutinho… Tem várias mulheres negras que vivenciaram ataques racistas na internet, e essa série de episódios eclodindo e sendo debatidos se torna um catalisador dessas transformações.

Quando pensamos em ataques sofridos por grupos historicamente marginalizados, principalmente na internet, observamos o uso da categoria “discurso de ódio”. Para você, ela é útil no contexto brasileiro? Faz sentido?

Ela faz sentido, mas ela não pode se sobressair, por exemplo, para omitir racismo, para omitir discriminação racial. A gente não pode simplesmente dizer que tudo é discurso de ódio, precisamos identificar que existe essa narrativa, esse conjunto de peças e enunciados que vem carregado de muito ódio, mas esses ódios têm uma motivação. É uma motivação racial, pela orientação sexual ou identidade de gênero, de cunho xenofóbico – precisamos entender que o discurso de ódio é uma esteira, que nele você vai ter ali todas essas motivações odiosas, por assim dizer, e ele não pode se sobressair e tampar tudo.

Isso é o que me deixa muito incomodada com os movimentos e organizações que têm lidado com internet, pois acabam tentando homogeneizar o discurso de ódio, quando muitas vezes é discriminação racial – não é só ódio por ódio, qual é a motivação do ódio? Para mim, a categoria faz sentido para que a gente possa tecer esse manto e compreender o tecido social brasileiro. Se falamos de discurso de ódio, precisa evidenciar as motivações – tem que falar que é motivação racial, motivação gordofóbica, de identidade de gênero ou religiosa. É preciso evidenciar quem são os sujeitos que estão sendo atacados e quais as identidades que eles carregam e entender qual é a mensagem. 

Como você definiria o discurso de ódio?

Acredito que seja um conjunto muito complexo de narrativas que vão evidenciar esse ódio pelas diferenças, pelas identidades que não são hegemônicas. Porque imagino que ninguém fica perseguindo um homem branco heterosexual que não é ativista assim do nada, “ah olha aqui, vou perseguir esse cara”, sabe? Então, acredito que seja, de fato, um ódio pelas identidades não hegemônicas e do quanto essas pessoas estão vivas e estão bem no sentido de estarem ali dispostas a enfrentar o que der e o que vier por e para a sua comunidade. Se pudéssemos fazer uma definição, seria nesse sentido de um conjunto de enunciados que vai evidenciar esse ódio pelas diferenças, por tudo aquilo que não é homem branco, cisgênero, heterossexual, de classe média.

Em 2019, o STF compreendeu, a partir da lei do racismo, que a LGBTfobia é crime. Você considera que seria um marco importante a extensão da lei para que a misoginia também fosse compreendida como crime?

Eu não sei até que ponto tem sido efetivo criminalizarmos tudo. É óbvio que eu penso também “vai fazer o quê com tudo o que está acontecendo?”, mas fico pensando “e criminaliza e faz o quê?”, se quando você chegar para denunciar na polícia vão dizer que você está maluca, vão te dar um chá de cadeira. Você vai passar por uma outra violência e não vai ter de fato a sua denúncia encaminhada, investigada, porque culturalmente esses crimes, o que a gente tem visto sendo criminalizado, culturalmente não é considerado crime, então, logo, a polícia não vai achar que isso é relevante. Eu não sei até que ponto isso é válido. Eu não tenho uma opinião fechada sobre isso, sendo bem sincera. 

Achamos que é uma lei que vai impedir que as pessoas discriminem as outras? Eu acho que não, eu acho que é a educação que vai fazer com que as pessoas entendam essas identidades, que são pessoas como qualquer uma.

Tenho muito incômodo de nós,  enquanto movimento social, querer criminalizar tudo, quando temos um hiper encarceramento da população negra, um hiper empobrecimento da população negra e falta de acesso. Portanto, vemos muitas pessoas negras empobrecidas com falas extremamente problemáticas, mas quando você vai olhar com mais atenção, são pessoas que não têm o mesmo tipo de acesso que outras que estão em uma universidade particular renomada ou que tem um emprego público, sabe? 

Então, não sei, para mim é muito difícil, porque a lei do racismo é uma lei extremamente inconstante. Quem é que já foi preso no Brasil por causa de racismo? E o tanto de coisa que vemos que é racista e colocam como “injúria racial”? Quem é preso por injúria racial? Ninguém. São episódios muito ínfimos, então eu não sei se isso é interessante para nós enquanto comunidade. É isso que queremos mesmo? Achamos que é uma lei que vai impedir que as pessoas discriminem as outras? Eu acho que não, eu acho que é a educação que vai fazer com que as pessoas entendam essas identidades, que são pessoas como qualquer uma. Para mim, a via da educação, do acesso à informação, é muito mais plausível porque a gente vai mexendo o imaginário social. E enquanto não transformarmos o imaginário social da nossa sociedade do Brasil,  podemos botar o tanto de lei que for, porque as estruturas vão continuar as mesmas e elas vão também seguir uma moral. Não vai adiantar muita coisa, não. 

Você gostaria de acrescentar mais algum ponto?

Acho que nós precisamos fomentar mais espaços para conversar sobre o tema e olhar para essas organizações mais antigas e tentar estabelecer uma parceria com elas, porque eu fico com muito receio de a gente, enquanto ativista, sofrer uns ataques que vão tirar nossas memórias, saca? Para além do nosso psicológico ficar prejudicado, de nós também perdermos arquivos históricos, perder dinheiro de instituições. Eu não sei, eu acho que temos que, de fato, conversar mais sobre segurança, e nessa perspectiva de estabelecer uma cultura, um hábito e fazer com que isso seja mais possível para todas nós, porque não se pode pensar apenas para algumas, né?

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